segunda-feira, 14 de março de 2011

Sidarta

Comentários e trechos de Sidarta,
Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Herbert Caro
52ª edição (revisada)
Editora Record 2009

Primeira Parte

(Dedicada a Romain Rolland)
O filho do brâmane
Sidarta, jovem falcão, junto com Govinda, seu amigo, ambos pertencentes à casta brâmane, depois de questionar os costumes e o saber tradicional, abandona a família para se tornar samana (ascetas) .
Sidarta percebe que a sabedoria brâmane e a dos eruditos não garante uma existência feliz.
“Quem poderia, porém, afirmar que esse homem, que tanta coisa sabia, levava uma existência feliz? Não seria também ele um acossado pela sede?” p. 20
Sidarta questiona os sacrifícios e costumes:
“Por que era preciso que tal ser incensurável se lavasse diariamente de seus pecados, empenhando-se dia a dia naquela incessante purificação?” p. 20

Com os Samanas
O desejo de Sidarta: Tornar-se vazio, vazio de sede, vazio de desejos, vazio de sonhos, vazio de alegria e de pesar. (...) p. 28
Quando todo e qualquer eu estivesse dominado e morto, quando, dentro do coração, se calassem todos os anseios e instintos, inevitavelmente despertaria no seu ser a quinta-essência, o último elemento, aquilo que já não fosse o eu, o grande mistério. P. 28
Sidarta, acossado de nova sede, tornava a espreitar, qual caçador, uma lacuna que lhe permitisse esquivar-se do circuito, para descobrir o lugar onde encontrasse o fim das causas e começasse a eternidade isenta de pesares. P. 29
Sidarta aprendia com os samanas numerosos métodos de separar-se do eu. P.30
(...) No entanto, por mais que os caminhos o afastassem do eu, ao fim, sempre o reconduziam até ele. (...) sempre vinha a hora em que era novamente Sidarta.
Sidarta não está convencido de que a doutrina dos samanas é o seu caminho.
As lições que até hoje aprendi dos samanas, poderia tê-las assimilado mais depressa e com menos esforço. (...) posso aprendê-lo em qualquer tasca do bairro de meretriz, entre carroceiros e jogadores de dados. P.31
Sidarta questiona: O que é a meditação? O que é o abandono do corpo? O que significa o jejum? E a suspensão do fôlego? São modos de fugirmos de nós mesmos. Conclui ele.
São momentos durante os quais o homem escapa à tortura de seu eu. Fazemo-nos esquecer, passageiramente, o sofrimento e a insensatez da vida. P. 31.
Sidarta duvida de que, com exercícios, jejuns, meditação se possa alcançar o Nirvana.
“Mas nunca alcançaremos o Nirvana (...). Acharemos consolo, encontraremos esquecimento, aprenderemos técnicas mediante as quais nos possamos iludir. O essencial, porém, o caminho dos caminhos, jamais se nos descortina.”
Sidarta diz que consultou os brâmanes, ano por ano, e que consultou os piedosos samanas sem obter resposta. Assim, conclui ironicamente:
“Talvez, ó Govinda, fosse igualmente oportuno, sensato e proveitoso interrogar uma ave ou um chimpanzé.” P.34
Sidarta conclui que não se pode aprender nada, que existe uma única sabedoria, é o Atman, que está em qualquer criatura. P.34
Govinda, assombrado, pergunta como ficaria a santidade das orações, o que seria feito da respeitabilidade da classe dos brâmanes e da virtude dos samanas, se aquilo fosse verdade e não pudessem aprender nada. (Govinda preocupa-se com a tradição, sua educação não admite questionar o saber estabelecido).
Sidarta ouve rumores sobre Gotama, o Buda, o sábio da estirpe dos Saquias, por isso era chamado de Saquia-Muni.
Após três anos em companhia dos samanas, Sidarta e Govinda decidem abandoná-los. O decano dos samanas enfurece-se, grita e diz impropérios, demonstrando que não passa de um homem comum, o que os deixa perplexos. P.39

Gotama
Sidarta e Govinda vão ao encontro de Gotama, na cidade de Savati, para ouvirem de sua boca a doutrina. P.41
Gotama ministrava a doutrina do sofrimento, da origem do sofrimento, do caminho à abolição do sofrimento. P. 45
A vida era sofrimento; o mundo estava cheio de mágoas; mas encontrara-se a salvação capaz de livrar-nos das tristezas: achá-la-ia quem acompanhasse o caminho de Buda.
Buda ensinava os quatro axiomas fundamentais, ensinava a óctupla estrada. P. 45
Govinda solicita sua admissão ao círculo de discípulos de Buda e é aceito.
Sidarta decide separar-se do amigo, Govinda, e buscar um caminho solitário.
Antes de partir, Sidarta se encontra com Gotama. Pede licença ao Buda para lhe falar:
“Há uma coisa, ó Venerabilíssimo, que despertou em mim especial admiração, logo que conheci a tua doutrina. Nessa doutrina, tudo fica completamente claro. Tudo é demonstrado. Tu mostras o mundo sob a forma de uma corrente perfeita, jamais e nenhures interrompida, corrente eterna, constituída de causas e efeitos. Nunca, em parte alguma, isso se percebeu com tamanha nitidez, nem tampouco foi exposto tão irrefutavelmente. Realmente, os corações de todos os brâmanes deverão vibrar de alegria, quando seus olhos enxergarem o cosmo através de tua doutrina, esse cosmo fora um conjunto inteiriço, sem lacunas, límpido como um cristal, não dependente nem do acaso nem dos deuses. Se o mundo é bom ou mau, se a vida em seus confins é sofrimento ou prazer, essa pergunta pode permanecer sem resposta.
Pode ser que aquilo tenha pouca importância. Mas a unidade do mundo, o nexo existente entre todos os acontecimentos, o fato de todas as coisas, tanto as grandes como as pequenas, estarem incluídas no mesmo decorrer,na mesma lei das causas, do devir e do morrer... tudo isso, ó Augusto, ressalta luminosamente, na tua excelsa doutrina.
Mas, nessa mesma doutrina, há um único lugar em que tal unidade e lógica das coisas estejam interrompidas. (...) que não pode ser mostrado nem comprovado. Refiro-me à tua tese acerca da possibilidade de superarmos o mundo e alcançarmos a redenção. Ora, essa pequeníssima lacuna, essa brechazinha, basta para destruir e liquidar toda a unidade e eternidade da lei cósmica.” P.49
Gotama explica que o desígnio de sua doutrina não é explicar o mundo, mas a redenção do sofrimento. P.50
Sidarta contrapõe que seu raciocínio é de que ninguém chega à redenção através da doutrina.
O propósito de Sidarta – prosseguir em peregrinação, não para ir em busca de outra doutrina melhor, senão para se separar de quaisquer doutrina e mestres, a fim de que possa sozinho alcançar seu destino ou então morrer. P. 51

O despertar p. 53
Sidarta parte definitivamente, deixando para trás toda a sua vida anterior.
Sidarta cessara de sentir o desejo de ter mestres e de receber ensinamentos. Acabava de abandonar o último mestre que surgira no curso de sua jornada, o Buda.
Pergunta a si mesmo: Mas que desejaste aprender dos teus mestres e extrair dos seus preceitos? Que será aquilo que eles, que tanto te ensinaram, não conseguiram propiciar-te?
E ele encontra a resposta:
Era meu desejo conhecer o sentido e a essência do eu, para desprender-me dele e superá-lo. P. 54 (...) Realmente, nada neste mundo preocupou-me tanto quanto esse eu, esse mistério de estar vivo, de ser um indivíduo, de achar-me separado e isolado de todos os demais, de ser Sidarta!
Decide encontrar por si mesmo o sentido de sua existência e iniciar uma vida totalmente nova:
Não me deixarei orientar pelo Yoga-Veda, nem pelo Atarva-Veda, nem por ascetas, nem por doutrina alguma. Aprenderei por mim mesmo. P. 55.
Ao observar ao seu redor e se enternecer com a beleza do mundo, constata que andou deveras surdo e insensível, pois o sentido e a essência não se encontravam em algum lugar atrás das coisas, senão em seu interior, no íntimo de todas elas. P. 56
Sidarta deixa de ver o mundo dos fenômenos como ilusão. P. 56
“Chamei de ilusão o mundo dos fenômenos. Considerei meus olhos e minha língua apenas aparentes, causais, desprovidos de valor. Ora, isso passou.” P.56

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